MUSASHI – SANTO OU VAGABOND?

“Entre a força e a técnica, vence a técnica. Se a força e a técnica forem iguais, vence o Espírito.”

Como dito no post sobre Vagabond no instagram (também falo sobre o mangá de Vagabond no blog, é só clicar aqui), este texto abaixo é só para que você tenha uma noção da pessoa que foi Musashi, é de autoria de Benedicto Ferris de Barros e foi retirado do mangá nº 01 de Vagabond da editora Conrad.

Ele viveu há 400 anos. Mas ainda hoje não há um japonês que ignore seu nome e desconheça sua história. Musashi foi e é um dos maiores heróis populares das histórias japonesas. Não porque tenha tido alguma importância na História do Japão, mas pelo que representou, como símbolo e exemplo. A não ser por sua elevada estatura, de quase 2 metros, Musashi não se destacava por mais nada. Era um samurai de família relativamente importante, mas orfão, recolhido e criado em um convento, depois de seu pai, que tinha uma academia de esgrima, ter sido morto pelo chefe de uma academia rival.

Ao tomar parte na decisiva batalha de Sekigahara, o adolescente sofre a segunda grande desgraça da sua vida. Como seu daimyô (suzerano, senhor feudal) estava do lado dos derrotados, ele perde não somente seu chefe e protetor como também seu emprego. Será um dos milhares de ronins, guerreiros desempregados, a vaguear pelo Japão como vagabundos em busca de comida e de fama. Musahsi não era entretanto um vagabundo qualquer. Ao contrário de outros samurais caídos em desgraça, ele tinha um dever a cumprir, um objetivo a alcançar, e não perdia tempo tentando manter as aparências. Era um displicente, relaxado nos trajes, e isto acentuava a impressão de que fosse um vagabundo. Entretanto, dos seus 16 aos seus 30 anos, Musashi dedicou sua vida a resgatar um dívida, a dívida filial de vingar a morte de seu pai. Nisto manifestava seu respeito pela moral estabelecida por Confúcio, que tinha como dever social supremo a dedicação e lealdade para com os superiores, os pais e os mestres. Uma de suas regras dizia: “não viverás sob o mesmo céu com inimigos de teus pais”, impondo, assim, o dever da vingança. E o “santo samurai” resgatou sua dívida eliminando um a um os descendentes de quem matara seu pai.

“Os homens devem moldar seu caminho. A partir do momento em que você vir o caminho em tudo o que fizer, você se tornará o caminho.”

Com isso, Musashi, o vagabundo invencível, viera a se tornar o mais famoso espadachim do Japão. E, dada a importância que o samurai guerreiro tinha na sociedade japonesa e a importância que ela dava à espada, (tida como sua própria alma), isto dava maior relevo à figura do “santo samurai”.

Entretanto, parece que nem a vingança, nem a arte da espada, nem a glória de guerreiro eram o objetivo de vida de Musashi. Ao alcançar esses objetivos, precisamente ao chegar na metade de sua vida, aos 30 anos (Musashi viveu até os 62 anos), ele some da arena dos duelos e por longos anos desaparece das vistas do público. Quando reaparece em 1640, convidado por Hosokawa Tadatoshi, senhor da província de Higo, para instrutor de seus samurais, está absorvido pelo cultivo das artes, da caligrafia, da literatura, da pintura, da artesania – para o desenvolvimento espiritual, em suma.

Se observarmos com atenção o comportamento de Musashi durante seus anos de lutas e duelos, podemos perceber que mesmo nesse período ele se sentia fora e acima das regras e padrões de um samurai comum, um homem da guerra e da força. Ele era visto por muito samurais como um verdadeiro vagabundo, pelo desprezo que manifestava ao trajar-se. Somente os samurais tinham o direito de portar duas epadas (dai-tô = a curta e a longa), mas só ele inventara um estilo de luta (Niten-ichi-ryû) que utilizava as duas. O Kenjutsu (duelo de espadas) era uma luta de golpes cortantes, que não admitia cutiladas (golpes perfurantes) a não ser no pescoço. Mas Musashi utilizou-o, ao que consta, contra seu último desafiante da família Yoshioka. Como espadachim, ao final desprezara a própria nippon-tô, a espada distintiva do samurai, trocando-a pela bokken, espada de madeira (na realidade, um cacete em forma de espada) que ele mesmo fazia. E seu último desafiante, o magnífico e benquisto Sasaki Kojiro foi abatido por ele com um só golpe de um remo que desbastara com sua espada ao cruzar o estreito que o separava da ilha Ganryû, onde Sasaki o esperava impaciente.

Por tudo isso se vê que Musashi não foi nenhum vagabundo nem um santo comum. Embora não tenha sido uma figura histórica importante, como indivíduo foi inegavelmente uma personalidade singular […] Musashi porém, mais do que uma personalidade invulgar, talvez o japonês que primeiro e melhor se afinou às novas tendências e necessidades de seu país. Ele não só viveu o espírito tradicional do bushidô (a moral e conduta do samurai guerreiro), mas também o Bunbu-ryôdô, o novo modelo do homem nipônico ideal, que cultivaria o desenvolvimento harmonioso do corpo e do espírito, das artes marciais com as artes da inteligência e da sensibilidade. Novo modelo que não só permitiria aos samurais desenvolver as atividades administrativas de um Japão unificado e pacificado, como também as prepararia para encabeçar as grandes mudanças que viriam a ser operadas pela Restauração Meiji. Restauração que poria o Japão na vida mundial, após um isolamento de quase um quarto de milênio ocorrido com o último shogunato.

Dando uma rápida complementação ao texto, Musashi nunca se casou, mas adotou duas crianças, que se tornaram seus discípulos, e já no final de sua vida, isolado em uma caverna conhecida como Reigando, se dedicou à meditação e à prática ininterrupta de seu estilo. Lá escreveu seu tratado mais conhecido o “Go rin no sho”, ou “O livro Dos Cinco Anéis” (dividido em 5 livros: terra, água, vento, fogo e vazio), deixando os ensinamentos de seu estilo ao discípulo Terao Magonojo.

“O guerreiro não deve morrer sem antes ter usado suas armas.”

Musashi faleceu no dia 19 dia de maio de 1645 de causas naturais. A seu pedido foi enterrado com a armadura completa na vila de Yuji, próximo à montanha de Iwato. Conta-se que durante seu funeral um forte trovão se fez ouvir dos céus, como se estes dessem as boas-vindas ao poderoso guerreiro.

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