FUJA

“Eu sou sua mãe. É a minha função cuidar de você quando precisa de mim.

E você precisa de mim.”


•SINOPSE•

Chloe (Kiera Allen) é uma garota de 17 anos que nasceu com complicações de saúde graves, não anda e necessita de cuidados e medicações. Sua mãe, Diane (Sarah Paulson), é quem toma conta de todos os detalhes da complicada rotina da filha: remédios, exercícios, alimentação controlada.

Após anos vivendo isolada e sob cuidados médicos e desejando liberdade, Chloe começa a desconfiar que sua mãe esteja escondendo um segredo sinistro.

 


Com apenas 1h30 de duração e focado em apenas duas pessoas: Diane (Sarah Paulson) e sua filha Chloe (Kiera Allen), “Fuja” é um suspense daqueles bão demais da conta sô (falando como um bom mineirinho, rsrsrs), como há tempos não via, desde “Fratura” (resenha aqui), que vai deixar o espectador tenso e vidrado a cada cena, em uma sequência de vertiginosas reviravoltas que só termina em sua cena final.

Se você chegou a ver o trailer, de cara vai perceber que “Fuja” é um daqueles thrillers psicológicos que se baseia na premissa que alguma coisa está errada, não sabemos se é por causa de uma mãe paranoica, controladora e obsessiva, ou de uma filha problemática e alucinante por causa de tantos remédios que “precisa tomar”.

Mas em poucos minutos de filme, a ameaça da mãe é uma realidade, com pistas muito claras: os segredos, as atitudes estranhas e abusivas disfarçadas de zelo e que estabelece perfeitamente o calor da relação materna para logo em sequência nos apresentar o choque de realidade que se transformará em um jogo de gato e rato em busca da sobrevivência.

“- Você está bem, mãe?

– Claro que estou bem. Tenho você”.

Sobre os personagens, Diane é uma mãe superprotetora, que vive praticamente para sua filha Chloe, ela sempre fez de tudo para ela, além de impor uma série de rotinas para a filha que estuda em casa, e precisa tomar seus remédios de forma controlada, se mostra uma mãe cuidadosa e carinhosa, até o momento em que a filha começa de suspeitar de algumas situações.

Chloe é uma menina inteligente que sobreviveu a um parto bastante complicado, que a deixou com muitas sequelas (ou pelo menos assim pensamos…), tem asma, hemocromatose, paralisia, diabetes e arritmia cardíaca (cada um desses sintomas tem uma explicação rápida na tela em forma de verbete, logo depois da primeira cena no início do filme), e apesar de muito independente, vive uma rotina de medicações e cuidados. Espera levar uma vida independente longe do controle da mãe, está se formando (não sei como funciona la nos EUA, uma vez que ela estuda em casa) e busca ser aceita na Universidade para a qual se inscreveu.

Sem falar muito sobre o filme, mas já falando, Chloe começa a desconfiar de toda a boa vontade e amor da mãe, ela começa a se questionar de algumas coisas: a internet que falha quando precisa usar o computador, um remédio que sua mãe lhe da, mas ela descobre que não foi prescrito para ela, o jeito estranho que a mãe se comporta sempre que os correios entregam a correspondência (a jovem espera uma carta de aceitação da Universidade que nunca chega), são essas pequenas coisinhas que vão se acumulando e instigando a desconfiança de Chloe e que o filme consegue trabalhar muito bem.

Na medida que descobrimos o que realmente aconteceu no passado, as revelações nos deixa atordoados, tudo é desenvolvido de maneira intensa e sufocante, o clima de tensão e suspense se mantém o tempo inteiro e talvez por isso é impactante, toda essa ambientação claustrofóbica, que joga o filme em uma grande tensão e que aposta na imprevisibilidade, casualidade e em algumas coincidências, sempre explorando a vulnerabilidade física de Chloe.

“Você precisa de mim”!

Aliás, sejamos justos, todo o mérito do filme vai para seu diminuto elenco e suas atuações brilhantes, as duas atrizes tem uma dinâmica e uma presença em tela super contagiante: Paulson está sensacional e convence perfeitamente que sua simpatia guarda algo obscuro, ela consegue mostrar as várias “faces” da personagem de uma maneira natural conseguindo ir da sensibilidade à loucura, através de pequenas gestos faciais.

“A medicação está mexendo com a cabeça dela”.

Kiera Allen, tem uma atuação excelente e convence não só na atuação, mas na parte física também, seja se arrastando pelo chão da casa ou pelo telhado, ela consegue passar muita verdade em suas cenas. O espectador realmente consegue sentir a tensão, agonia, e o medo da personagem.

O filme além de outras coisas, também coloca em xeque o extremo de uma dependência emocional e psicológica, no caso aqui entre mãe e filha (mas que podemos perceber em muitos relacionamentos entre pares), onde o amor se confunde com obsessão.

No final das contas, “Fuja” é um thriller psicológico arrepiante e envolvente que não se prende a clichês (ou sim), e nos aprisiona em frente da tela, da mesma forma que Diane aprisiona sua filha dentro de casa. Apesar de não se preocupar em se distanciar do óbvio, resgata uma construção de suspense que busca trazer sensações torturantes e claustrofóbicas, como a cena da farmácia, por exemplo, em que uma cena aparentemente leve e até cômica, de repente dá lugar a uma tensão angustiante.

“- O que acontece se um humano tomasse Ridocaína?

– O que acontece?

– As pessoas ficariam paralisadas.”

Com um roteiro, muito bem escrito, principalmente nos detalhes e de uma forma bem envolvente, mantém o espectador interessado e envolvido do começo ao fim.

Não vou dizer aqui se o filme tem algum demérito, se é que o tem, até porque não sou nenhum crítico e nem tenho pretensão para tal, o que posso dizer é que ao fim desses quase 90 minutos, a conclusão a que chego é a mesma do sonho do oprimido, a de que um dia ele quer ser tornar o opressor, essa sensação psicológica que acontece em decorrência das consequências dos traumas de uma mente torturada, e é difícil julgar, pois aqui nesse caso, para nós que estamos assistindo, não deixa de ter um gostinho bom…

“Eu te amo mãe. Agora abra a boca.”


Título: Fuja

 

Direção: Aneesh Chaganty

 

Elenco: Kiera Allen, Sarah Paulson, Bradley Sawatzky, Pat Healy, Sara Sohn

 

Roteiro: Aneesh Chaganty, Sev Ohanian

 

Gênero: Suspense, thriller psicológico

 

Duração: 90 minutos

 

Ano: 2020


Abaixo o trailer oficial da Netflix:

 

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